terça-feira, 11 de abril de 2017

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Hoje eu me vi, frente a frente para o abismo de eu mesma. Eu parei, e ouvi, no fundo do silêncio o vento que passava por entre as quinas, e tentava a todo custo formar uma melodia.
Hoje eu olhei, e me vi, sem que quisesse me enxergar eu acabei vendo. Não que essa miragem tivesse me satisfeito em qualquer das metáforas ecoantes nesta linha.
Nada me agradara, tal como não me agrada tem tempo.
E a vida tem disso ainda? Agrado?
Acho que não.
Pra mim é só vazio. Longe, sozinha.
As companhias já não se apoderam de seus significantes e os poucos que restam são realmente muito poucos. Todos que você pensara que estivessem lado a lado, nunca estiveram ai e hoje são apenas acúmulos de memórias e histórias que você insiste em contar pra si mesma.
Mais vazio do que um vácuo, presa fora da crosta terrestre, do lado de fora dessa bolha chamada vida.
Nada faz sentido, talvez eu apenas pudesse conseguir apagar minhas redes sociais. Tirar de mim todas aquelas inúmeras páginas que não me servem para nada. Descarregar meu feed, descarregar de mim, me descarregar.
Eu queria me preencher com algo, ou em alguém mas me informaram que essa parte geralmente só funciona com base em méritos e infelizmente isso é algo que eu nunca soube muito bem como lidar. As, poucas vezes que carreguei algum, sem sombra de dúvidas eu acabei quebrando-o antes que você pudesse conhecê-lo. Qualquer medalha ou troféu, qualquer sorriso ou memória de paz, todos estilhaçados em algum canto dessa casa enorme, e vazia.
Alguns labirintos são ocos, e você não precisa encontrar a solução.
Inspirando e respirando como a máquina perfeita que és, tão vazia e sozinha quanto qualquer outra.

sexta-feira, 24 de março de 2017

10:41pm

Eu poderia tentar descrever este momento, mas isso não será possível.
Ele não me pertence, nem nada nunca me pertenceu.
Neste momento, eu sou só leveza ao vento. Eu sou isso, sou esse agora.
Sinto a brisa de outono pela janela, e gostaria que ela me ajudasse a ser este momento.

Tudo o que eu era, tudo o que é agora. Tudo.
É vazio demais pra carregar. É sozinho demais para se estar.
Leve vento.
Leve-me, lave-me, vá.
Tire isso daqui, abra a porta para que possa sair.
Quero ser o vento, sair pela janela, voar.
Estar leve, ser algo.
Voltar a controlar a quantidade mínima de sanidade necessária.
Respira.
O ar me pertence, este momento não.

domingo, 19 de março de 2017

Um.

Primeiro.
Na verdade eu nem organizei realmente o que gostaria de escrever aqui. Tal como quase todos os demais textos, esse é só mais um pedido de socorro, Uma súplica sobre as coisas que não podem ser controladas.
Completou-se um.
O primeiro conjunto de 356 dias, vazios.
Claro que eu já tive dias piores mas, o meu verdadeiro problema está em que eu não faço mais ideia do que é ter um dia bom.
Sexta feira eu até achei que havia tido um dia bom, mas não. Foi um dia mais leve, mas nunca deixou de ser vazio e complicado. Me falta tanta coisa desde que você saiu. Não faço ideia de onde encontrar esse ponto final pelo qual minha alma suplica. Nossos problemas nunca foram nossos, não era a gente. Não tivemos a chance de sermos o que éramos pra ser e, de alguma forma, eu tenho certeza de que seríamos ótimos.
Muito além de tudo que passamos juntos e imaginamos ser felicidade.
Eu já havia decorado a cor da minha vida com você, e o problema é que não existe nenhuma mais bonita..
Não quero que você volte, isso é verdade, mas a questão é que eu nunca mais fui algo depois de tudo. Eu não posso simplesmente voltar para o que era antes de te conhecer. Não posso apagar nossos sorrisos e todo o bem que você me fez. Estou completamente condenada a viver com essas memórias.
Algumas pessoas podem se perguntar: "como você pode ter tanta certeza?" e a questão é que a gente sabe. O que nós eramos juntos, longe de qualquer imbecilidade externa, era melhor do que tudo que ainda existe, e funcionava sim, de uma maneira musical.
E quanto mais socorro eu peço e mais me afasto do vazio, e mais sozinha eu me deparo.
Chorando, jogada no chão da cozinha às três da manhã.

...
O telefone poderia tocar pra me tirar desse limbo.
Talvez alguém pudesse bater à porta...
Mas não.
Ele não vai tocar, nada pode me tirar daqui.
Como em uma areia movediça, tudo o que posso fazer é ficar imóvel, e aproveitar cada segundo que me ainda me resta de oxigênio,

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Sem endereço

326 dias.

Hoje eu acordei com saudade e doeu mais do que deveria.
Dói todo dia. Até parece que vai melhorar, mas nada melhora neste mundo.
Acordei com o peito apertado, triste, sem você pra dividir a cama e, mesmo assim eu não fui capaz de lembrar como o seu rosto era. É a primeira vez que isso acontece.
Eu ainda não consegui, estranho mas não foi possível. Eu só fico aqui enquanto dói, me lembrando perfeitamente de todos os momentos bons, e de como eu sempre soube como ia sentir a sua falta. O problema da falta é que ela é bem assim mesmo: uma hora deixa de ter endereço mas ela nunca vai.
Sinto sua falta sem me lembrar do seu rosto mas eu me recordo sobre os seus olhos e como eles pareciam ter dito a verdade quando você dizia o que sentia. Lembro-me de olhar pra eles, no nosso aniversário de 5 meses, e ver algo real, forte, que chegou até a me assustar. Foi só nesse dia que eu sabia que poderia me entregar porque ficaria tudo bem. Mas nada nunca fica bem, é a lei da vida. Eu me lembro de todas as vezes que eu tive pesadelos e ele me acordava com abraços. Me lembro também de que a grande maioria desses pesadelos eram mentiras, e eu só parecia tê-los pra senti-lo me abraçando e caindo no sono comigo de novo. Ele sempre teve problemas para dormir.
O problema da falta deixar de ter endereço é que ela não sabe ir embora, e a gente se torna esse pedaço de lixo, mais dependente do que os drogados que vivem espalhados pelas ruas.
A falta que eu sinto se transforma em carência e tristeza. Tudo passa a incomodar.
Você sente ciúmes de coisas que não deveria e se torna quase impossível ser sozinha. Tudo que consigo imaginar é de como estaríamos se tivéssemos sido mais forte e lutado por nós.
Um grande "e se" ecoando, em looping.
Se têm de ficar algo pra trás porque não fica a parte que deu errado? Todos as mentiras que você disse, todos os dias que eu chorei até dormir por sua causa. Queria me lembrar de todas as vezes que você me diminui e tudo que contribuiu para que eu me tornasse o lixo que estou atualmente. Já que era pra me lembrar de algo, que fosse todas as ofensas que me despedaçaram.
Alguma coisa na vida tinha de ser mais fácil.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Banho de chuva

No interior úmido de um bosque, um macaco e uma raposa mantinham uma amizade incrível. Ninguém nunca acreditou muito nos dois, ou se quer chegou a entender como aquele relacionamento acontecia. Eles simplesmente eram, e foram desde o primeiro minuto em que eles se viram.
Juntos eles viveram bons tempos sozinhos, excelentes períodos de felicidade com seus bandos e já haviam sobrevivo até a uma grande traição, que mesmo que ainda doa não havia conseguido separar os dois.
Ambos já choraram muito. Tanto que já souberam que iriam secar por dentro, inteirinhos, e virar pó. Mas não. A Raposa esteve ali pelo Macaco, contando com a presença dele como um verdadeiro irmão.
Irmãos que nasceram de um banho de chuva.
Muitas estações se passaram e no meio do caminho, a Raposa ficou triste. Muito, muito triste.
E em um belo dia o Macaco não esteve ali.
Desta vez, pela primeira vez em muito tempo, o Macaco estava bem, cumprindo o seu papel na floresta, religiosamente e por um minuto, esqueceu-se o quanto era importante que ele continuasse ali. Costumava ser o elo entre eles, o fato de ambos terem vidas que apenas davam errado. Eles sabiam disso, e riam todos os dias, juntos, mas agora não fazia mais sentido.
Ele agora era um ser melhor por ter encontrado a paz interior, mas passou a ignorar todo o restante.
Um belo dia ele até que quis ficar, mas não deu. Ele tentou continuar, mas não estava lá.
Seu corpo continuava ali, um Macaquinho bravo, gritando com a Raposa sobre as coisas bonitas da vida e como ela não poderia mais ficar triste assim. E a Raposa só ficava mais e mais triste, sozinha e sem querer ver ninguém.
Vez ou outra, na primavera, eles se enganavam trocando cartas. Insistindo que ainda eram amigos e nada havia mudado. Mas tudo mudou. O mundo gira em tangente, nem tudo é recíproco como deveria.
O Macaco cresceu na vida, se tornou chefe do bando e migrou para o litoral.
A Raposa começou a cavar uma toca, e disse que cavaria até não ter mais forças.
No outono seguinte aconteceu um grande incêndio, milhares de hectares transformados em cinzas.
Assim como aquela amizade, incrível.
Assim como todo o restante.
E a Raposa, que finalmente parou de cavar.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Não te anseias, pequena

Então me diz pequena, é apenas crescer que você quer?
Me contaram que pouco lhe importa o restante, seu interesse é sobre ser adulta, ser alguém. Pois saiba que aqui temos a primeira ilusão: quanto mais adulto você for, menos alguém será.
Ser adulto te traz uma versão do mundo cinza demais, e rotineira demais.
Você vai chorar por ter perdido um emprego que odiava. Vai querer desistir das suas ambições todos os dias, apenas pelo fato delas não serem tão rentáveis quanto outras.
Você vai se encontrar por diversas vezes tendo de fazer um esforço imenso para conseguir sair de casa e, na maioria dos dias você terá de fazer o dobro deste esforço apenas para conseguir se levantar. Os dias não terão muito significado justamente porque você procura cegamente por um.
Vão te prometer um amor bem bonito, desses que vendem no canal 9. E vai ser ótimo, aliás, por muitas vezes vai grudar na sua memória como melhor ou única coisa boa que lhe aconteceu, em toda a sua vida. O problema é que depois acaba, e você descobre da pior maneira que aquelas histórias tristes, que geralmente ficam na prateleira debaixo também vem de brinde no romance que você comprou no canal 9. Malditas propagandas.
É essa correria que você quer pra sua vida, pequena?
É sair de casa ainda amanhecendo e talvez, se tiver sorte, chegar um pouquinho mais cedo em casa, e gastar esses minutos a mais da melhor forma possível: lamentando o fato de estar cansada demais para fazer qualquer coisa.
É neste inferno que você quer viver pequena?
Sua família não te reconhece mais, assim como os seus amigos de infância. Seus amigos que você julga próximos vão te enviar cerca de quatro mensagens a cada dois dias - se você tiver sorte, claro, e bons amigos - e na verdade muitas dessas mensagens não possuem nada de "me preocupei com você", no fim é só um check na lista: "mantenha contato com as pessoas".
Pense bem pequena, aqui todo mundo é triste e vive por dizer que está tudo bem. No fim, é só uma grande competição de quem mente melhor.Ser cruel é o novo bom, pessoas e coisas são o mesmo.
Sei que ai onde você está também é complicado e sempre tem aquele amiguinho que não quer te emprestar um brinquedo novo. Mas ai vocês ainda tem cores, e uma disposição enorme. Vocês têm a inocência de que a vida vale algo. Seus problemas são joelhos ralados e brinquedos que quebraram sem querer.
Acredite em mim pequena, daqui não se leva nada para se orgulhar. É só um acúmulo imenso de dias nublados desejando ter essa época sua ai, de volta.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Respiração

276 dias.
Me deixa ficar triste, eu tenho esse direito.
Clarice certa vez requisitou o direito ao grito, e portanto gritava. Gritava através de suas palavras e histórias. Gritava em sua silenciosa solitude. Hoje, eu peço pelo meu direito de ficar triste, ou até mesmo de ser triste.
Nunca fui do time positivista, apesar de tentar incessantemente manter um bom humor. Mas faz tempo que caminho de cabeça baixa, e não existe muita coisa a ser feita que não se baseie apenas no "aguente firme". Pois bem, eu estou aguentando. Aguento num tom de azul. Aguento triste, mas por favor me deixa, eu tenho esse direito.
Já fazia algum tempo que eu não saía de casa para eventos propriamente noturnos. Aliás, eu não tenho saído de casa pra quase nada. Ontem eu fui a um show, e foi bem divertido. Encontrei amigos que eu não via a tempos e foi bastante agradável mas, apesar do calor estar insuportável e me render um gigantesco desconforto - com direito a falta de ar e dermatites - o problema não foi só esse.
Cheguei em casa com uma forte dor nas costas mas não era algo propriamente muscular, era mais um cansaço enorme, como se eu tivesse erguido muito peso ou prendido minha respiração por horas. E não foi a primeira vez que isso aconteceu. Notei isso em outros dois eventos anteriores, sendo que um deles foi uma reunião bem tranquila entre amigos. A questão é que realmente era um cansaço, estar fora da minha casa me obriga a fazer um esforço enorme e pra piorar, boa parte desse esforço é porque eu tenho medo.
Tenho medo demais. Um medo que chega a ser sufocante de virar a esquina e dar de cara com qualquer vestígio que venha dele. Sei que é tolice. Sei perfeitamente que isso nem sentido faz. Sei também que acabou e deveria ficar pra trás. Sei, infelizmente, que nós nos desconhecemos ainda quando estávamos juntos mas meu medo não é só esse. Tenho medo também de conhecer alguém e numa ironia imensa do universo o clichê se repetir, e esse alguém se tornar o novo ele. Tenho medo até mesmo de alguém faça, ou seja algo que remotamente possa vir a me trazer lembranças, e assim me deixar mais mal do que eu já estou naturalmente. Sentir-se dois pra depois voltar a ser um é algo que realmente te corta em pedacinhos pra poder te separar. Eu ainda não estou inteira, nem sei se um dia vou conseguir ficar, então por favor, tente entender e me deixa ficar triste.
Me deixa desativar meu Facebook, tirar minha foto do Whatsapp. Parece loucura mas é a maneira que eu encontrei de não existir quando assim me sinto, inexistente. Melhor estar off no online do que finalmente ficar off da vida. 
Por favor, pare de me culpar por não sair pro barzinho na sexta a noite mesmo que seja a dois quarteirões de casa e pra uma única cerveja. Se eu disse não eu realmente não quero ir. Sair de casa me requer uma energia excessiva que eu realmente não preciso gastar. Eu não preciso sair, ninguém precisa. Eu só preciso ficar bem e juro que é exatamente isso que estou tentando, a mais de duzentos e setenta dias.
Me deixa ficar em casa, onde é seguro e minha solidão não atrapalha ninguém. Por favor. Me deixa aqui quietinha que em algum momento eu durmo e tudo fica "bem". É assim que é a vida e eu sei que a grande maioria é assim. Me deixa chorar em casa, quieta, em mim. Ninguém é obrigado a ser comercial de margarina. Pode não parecer saudável mas pra mim saudável é fazer algo que eu me sinta confortável, e infelizmente fingir que está tudo bem não se encaixa nesse quesito.
 
"Lost myself and I am nowhere to be found"